CRISE DOS 60

Nanda entrou pela porta arrancando os sapatos com uma das mãos, e na outra segurando um lindo buquê de rosas amarelas.
A primeira coisa que fez, foi pegar o vaso de cristal que ganhou do pessoal da revista no seu aniversário do ano passado e colocar as flores que ganhou como presente por seu atual aniversário.
Ela mal podia acreditar. Era um misto de euforia com desespero. Euforia pelas experiências que os anos lhe deram, desespero porque... sessenta, né!?
Três casamentos falidos, dois filhos, três netos, uma carreira espetacular escrevendo sobre política em uma grande revista feminina, uma casa bonita, uma carro importado e estava ali. Naquela casa enorme, numa vida enorme, sozinha!
De seus casamentos só lhe restaram três ex maridos (sendo que só dois vivos), e uma cama de casal vazia, com um livro e seus óculos de cabeceira no criado mudo, também restaram algumas mágoas e até saudades do que não se teve, mas sonhava que um dia teria! Hoje não lhe restam nem mesmo sonhos!!!
A jornalista viu a ditadura e a queima de sutiãs nos anos 60 quando ainda era criança.
Lia sobre a luta das norte americanas feministas para os direitos civis dos negros e o movimento contra a guerra do Vietnã.
Ali apareciam mulheres inteligentes, que serviram de exemplo para o mundo e para ela.
Hoje, Nanda era uma mulher de 60 anos, com apelido de garotinha. 
Tão inteligente, segura, bater insegurança aos 60?!
Não pode ser!
O espelho não estava tão cruel, será que já vivera demais?
Ela olhava seu scarpan vermelho, sua cama vazia, e começou a se perguntar se queria mesmo ser tratada como feminista, ou se só queria mesmo ser feminina. Será que valeu a pena abrir mão de viver intensamente a maternidade por uma carreira!?
Nem sabia o que era amamentar, lavar louças, fazer macarronada para família no final de semana. Mas sabia falar de política e filósofos.
O que será que a tornaria imortal? Suas palavras intelectuais ou a criação de seus filhos?!
As perguntas continuariam sem respostas, a vida é um campo belo e florido, porém esburacado, valeu mesmo a pena atravessa-lo sozinha!?
Aos 60 anos, queria ser jornalista ou avó?
No dia seguinte, Nanda acordou e viu as flores na sala.
Lembrou-se de seus questionamentos na noite anterior! Pensou se os deixou em seu travesseiro, ou se eles ainda faziam sentido!
Tudo aquilo poderia ter sido apenas uma crise dos 60! O medo e a ansiedade que a nova etapa da vida poderia trazer!
Fechou os olhos na frente do espelho, viu sua vida passar por debaixo de suas pálpebras! Pode ver através de seus pensamentos, sua cama vazia, os vinhos e as viagens que degustara nessa vida espetacular! Viu histórias que nem eram dela, mas que se apropriara por ter estudado tanto!!! 
Scarpan, sutiãs queimados, um minúsculo pé de galinha no cantinho dos olhos, a carteira de identidade que provava seus 60 anos e 1 dia... teve vontade de ligar para os filhos, para os netos, para os dois ex maridos que ainda estavam vivos, pensou em procurar um analista, psicólogo, psiquiatra...
Nanda pegou seu celular, procurou o telefone da clínica e 
...
marcou mais uma aplicação de botox!



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha - O segundo sexo

Feminismo, por Ayn Rand

Viagens literárias: Mergulho no mar