Quero ficar mais um pouquinho

Olá, galera!

A "Quarta Crônica" chegou atrasada, mas chegou! Então, deliciem-se com mais uma crônica da querida Jô Coelho. 



A gente sonha cada coisa!
Numa noite dessas, sonhei que tinha morrido e, ao chegar ao céu, Deus me falou:
- Seja bem-vinda, minha filha!
Eu, ainda meio assustada, porque não estava nos meus planos subir tão cedo, perguntei:
- Por que o Senhor me trouxe agora? Eu ainda tinha tantas coisas pra fazer lá embaixo.
- A culpa não foi minha. Você é que não se cuidou direito: bebeu, fumou, não praticou atividades físicas regularmente e se entupiu de batatas fritas, X-bacon, pastel e outras comidinhas nada saudáveis. E o que era aquilo de ficar até de madrugada no computador, escrevendo, escrevendo, perdendo preciosas horas de sono? Seu coração não aguentou.
- Tudo bem, eu admito que andei pisando na bola, mas, por favor, me deixe voltar. Eu prometo que vou mudar meus hábitos e vou me cuidar o melhor possível. Se o Senhor me der esta chance, irá se surpreender com a nova mulher em que eu irei me transformar.
Deus, como é muito bondoso, resolveu me dar mais uma oportunidade.
- Então, minha filha, vou providenciar já a sua reencarnação. E mais: vou lhe dar a chance de escolher um novo lugar para renascer. Que tal o Japão?
- Não. No Japão, não. Lá tem terremotos e tsunamis.
- Quem sabe a China?
- Também não quero. Na China já tem gente demais.
- A Índia, está bom pra você?
- O Senhor se esqueceu que na Índia a vaca é sagrada? Eu sei que não poderei mais abusar de comida, mas ficar sem churrasco e bife acebolado, aí já demais.
- E se eu mandasse você para a França?
- De jeito nenhum. Nem pra França, nem pra Dinamarca, nem pra nenhum país europeu, por favor. Ainda mais agora com os atentados terroristas contra a imprensa. Se eles descobrirem que sou escritora é bem capaz de me atacarem.
- Vou mandá-la para os Estados Unidos. Acho que você vai gostar, afinal quantos brasileiros sonham em morar lá?
- Deus me livre, quero dizer, o Senhor me livre! Eu não confio nem um pouco nos americanos. Eles estão por trás de muitas coisas erradas que acontecem por aí. O Senhor sabia que os Estados Unidos apoiaram a instalação de governos ditatoriais em diferentes países da América Latina, inclusive no Brasil? É claro que o Senhor sabia. O Senhor sabe de tudo. Além do mais lá tem nevado demais. Eu odeio inverno!
- Talvez você gostasse de algum país do Oriente Médio: Afeganistão, Arábia Saudita...
- Não, não. Eu não ficaria bem de burca, prefiro modelinhos mais fashion.  Sem contar que aquela região é cheia de conflitos e guerras. O Senhor me perdoe, mas isto é uma proposta bastante sinistra. Eu diria que é um presente de Grego.
- Eu não sei o que fazer com você. Estou dando a chance de nascer em outro país, em outra cultura, com oportunidades diferentes e você não quer.
- Obrigada, Senhor, mas não quero mesmo. Pode me mandar de volta para o Brasil.
- Você tem certeza?
- Tenho sim, Senhor.
- Mas lá as coisas estão complicadas: a inflação voltou com toda força, os aumentos dos combustíveis e da energia elétrica estão furando os olhos do povo, a água está acabando, a Saúde Pública está uma calamidade, a violência virou rotina nas grandes e pequenas cidades, os engarrafamentos estão cada vez piores, não há transporte público de qualidade, assaltaram os cofres da Petrobras...  Você não estava acompanhando os noticiários? Até eu que sou Deus custo a acreditar no que fizeram com a maior empresa Estatal do país. Ficam dizendo por aí que “Deus é brasileiro”. Eu não. Não sou mesmo. Não posso compactuar com tanta falcatrua, com tantos desvios de dinheiro, com tantas propinas, com um governo corrupto e empresários desonestos.
- Eu sei de todas estas coisas que acontecem no meu país, mas se nós, os verdadeiros brasileiros, desistirmos dele, o que será no futuro? Eu quero ficar mais um pouquinho na minha terra porque sei que, apesar de tudo, ainda existe esperança de que as coisas mudem.
- Já eu, estou igual a São Tomé: tenho que ver para crer.
- O Senhor falando isso me assusta.
- É pra assustar mesmo. Eu criei um país tão bonito, tão rico, com tantas possibilidades, mas estão acabando com ele e, pelo que tenho visto, está difícil acreditar que ainda tenha conserto.  Você ainda quer voltar para lá? Pense bem, minha filha.
- Quero. Não há o que pensar.
- Depois não me venha com preces e lamentações. Ando cansado de tantos pedidos impossíveis: “Deus acabe com a seca”, “Deus nos livre das enchentes”, “Deus contenha a violência”, “Deus nos salve dos petistas”. Eu bem que tenho tentado, mas está muito difícil. Eu dei a inteligência e o livre arbítrio para que o homem pudesse conduzir a vida por si próprio, mas ele só faz bobagem. E no Brasil é ainda pior: não cuidam da Educação, da Saúde, da Segurança, do meio ambiente. Depois vêm com essa choradeira e pedidos de socorro. Elegem os piores políticos e acham que sou eu quem tem de resolver os problemas que são de obrigação desses safados. Mas o que é deles está guardado. Eles que me aguardem.
- Então, o Senhor vai ou não vai me deixar voltar para o Brasil? Quero voltar para o lugar onde eu estava. Exatamente para o mesmo lugar: Valença, no Rio de Janeiro. O lugar onde cresci, onde constituí família, onde conquistei amigos, onde eu era feliz.
- Está bem. Se é assim que você quer, é assim que vai ser. Vooooolte! – Ele disse com aquele vozeirão.
Neste momento, surgiu um clarão de ofuscar os olhos.
E aí eu acordei.



    
 

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