Desafio 642 - Tema 59 (O cheiro de uma lugar que você ama)

O cheiro do lugar que eu amo.



Existem lugares mágicos para cada pessoa que habita esse planeta. Lugares que podem ser simples, podem ser próximos. Ou distantes e extremamente exóticos. E às vezes, basta uma única visita a um desses lugares para que nos apaixonemos perdidamente por eles. Foi o que me aconteceu um dia, há mais ou menos uns dois anos e meio...
Era uma casa. Uma casa simples, não muito grande. Era do tamanho dos meus sonhos. Dos meus desejos. Era o espelho de tudo o que sempre sonhei. Quando a porta se abriu, era como se os olhos de uma criança se abrissem pra mim. Uma casa iluminada! Se os olhos são o espelho da alma, aquela casa tinha então uma alma brilhante e resplandecente!
A sala era pequena, mas extremamente aconchegante, tipo abraço de mãe, quando a gente fica triste porque repetiu o ano na escola. Entrei e o perfume daquela sala era algo inexplicável. Tinha um cheiro de sândalo que me fez levantar os pés do chão. Um cheiro de noite e deserto. Como se minha alma não pertencesse mais a esse lugar. 
Despertei com um chamado. Aceita uma água, um café? Eu, que jamais recusara um café em toda a minha vida, disse que aceitaria depois e agradeci. 
Atravessei o corredor daquela casa e fui identificando os objetos, as cores, mas eram os perfumes que me invadiam a cada segundo, como se milhões de pequenas partículas vivas das mais diversas essências se rebelassem contra mim, corpo estranho naquele macro organismo residencial, funcional e perfeito. 
O banheiro, pequeno e impecável em limpeza e organização, tinha um leve cheiro de sauna, com toques de madeira que me pareciam pertencer, desde sempre, ao ambiente.
Por fim, quando cheguei à cozinha, senti como se algo se partisse dentro do meu corpo e tive a impressão que jamais encontraria essa parte perdida de mim novamente. Era uma pequena loja de temperos e especiarias aquela cozinha, com os cheiros quentes de pimenta que se espalhavam por bancadas, cheiros adocicados dos vários potes de mel em cima da mesa, vasos com tempero fresco, manjericão, hortelã, alecrim... Alhos e cebolas em réstias, pendurados num canto estratégico e um fogão à lenha que me encheu os olhos de lágrimas!
Por que era tão difícil, para a grande maioria de nós, entender a beleza e a harmonia que a simplicidade encerra em si? Por que vivíamos tão afastados do bom e do belo em nossas vidas? Por que eu, que levara tantos anos buscando essa beleza do simples, tantas vezes me negara a sentir o perfume da vida?
Era vida aquela casa. E eu a amara profundamente desde o primeiro momento em que coloquei ali os meus pés. Desde que, aquela casa, como se fosse o meu melhor amigo, meu irmão ou meu pai, me puxara pelas mãos e me convidara a entrar, me aceitara como sou, e me amara exatamente da mesma forma como eu a amei. Não pelo que ela possuía, mas pelo que ela era. 
Ainda hoje, vez por outra me volta a lembrança daquela casa cheia de vida.  Volta quando sinto o cheiro de café fresco, ou o aroma dos temperos em refoga, do alimento bem feito, do aconchego da roupa limpa e perfumada numa noite de inverno. O amor é feito de sensações que ecoam pela eternidade, atravessando as fronteiras inimagináveis de espaço e tempo. Por isso acredito que o cheiro do lugar que amamos seja, talvez, a melhor lembrança que podemos guardar pela eternidade. 

"O amor é a única coisa que somos capazes de perceber que transcende as dimensões do tempo e do espaço. Talvez devamos confiar nele mesmo que não o entendamos ainda."
Interstellar




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