Sobre a Flir...

Ah, queridos leitores e amigos, coração está em festa! Que coisa maravilhosa foi participar da Flir - Feira do Livro de Resende - nesse domingo! O evento foi no parque de exposição da cidade, trazendo arte, cultura, literatura para todos os gostos.
Eu e os amigos passamos uma tarde agradável e, claro, emocionante. Nós, do Clube Literário Palavras ao Vento, terminamos nossa noite de domingo com um sarau literário diferente - pois, além de poesia, levamos a prosa também para "soltar ao vento" as palavras de todas as formas. Caros leitores e amigos, para vocês terem ideia da emoção que nos invadiu, entramos no palco logo após a apresentação sensacional da poetisa/escritora/atriz Elisa Lucinda.
Foram momentos maravilhosos! Falamos sobre nossos trabalhos e, principalmente, levamos a poesia e arte valenciana para além de suas fronteiras.
O grupo todo ficou muito feliz de participar como convidado desse evento superespecial!
Nesta segunda poética, compartilho com vocês algumas fotos do evento e algumas poesias/textos que foram declamados por nós e também alguns com os quais a poetisa Elisa Lucinda nos presenteou naquela tarde!



De Elisa Lucinda
Aviso da Lua que menstrua
Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia.
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita..
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos..
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente
Ela é uma cobra de avental
Não despreze a meditação doméstica
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofando
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!




 SÓ DE SACANAGEM
Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!

 Elisa Lucinda



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa





Sem tempo

Eu queria um lugar em minha casa
Em que o tempo não existisse
De lá desse lugar o tempo não poderia tocar em nada,
Sem passado, sem presente, sem futuro
Nem eternidade,
Nada de anos, meses, dias, ou minutos.

Nesse lugar, então, eu guardaria
As pessoas que mais amo em minha vida
Aquelas flores bem bonitas do jardim
O meu cachorro jovem ainda
E também o meu cavalo andador.

Um lugar...
Sem tempo,
Pois ele é uma correnteza que arrasta tudo.

Sobre o tempo,
Diz-se que ele cura as feridas
Apaga as mágoas
E nos ensina.
Professor implacável
Que nos dá conhecimento
Mas nos leva a juventude, a saúde, as oportunidades
Ele nos leva as pessoas
Ele nos leva...

Que bom seria um lugar
Em que o tempo não existisse
Que bom seria estar
Simplesmente estar com tudo que se ama
Sem se preocupar com começo meio e fim
Simplesmente estar vivo e poder amar sem medo de acabar.

Um dia vou quebrar todos os relógios da minha casa.



Elayne Amorim


"Estou aprendendo a conviver comigo, sem que seja necessário ter overdose de mim. Consigo rir sabendo que o riso é provisório, choro mergulhada nos meus pensamentos, e na saudade do que nunca tive e poderia ter tido, mas sei que o dia amanhecerá lindo e que minhas lágrimas também não serão eternas.
A vida é assim e eu não posso fazer nada, além de lutar todos os dias e fazer o melhor que eu puder para ME fazer feliz".
- trechinho que li, do livro "Do fundo do coração" da escritora e amiga Jô Coelho.







Outros livros que "levamos para o palco"...
- "Enquanto os homens dormem" e "Traduções poéticas" - Elayne Amorim
- "Tribo do amor" - Pit Larah e um belíssimo texto de mais um livro da Pit que está no forno...







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