Memórias do Vale do Café - A Saga de Manoel Congo

Dando continuidade a nossa coluna "Memórias do Vale", hoje resolvi trazer a resenha do documentário "A Saga de Manoel Congo".


Ficha Técnica

Título: A Saga de Manoel Congo 
Direção: Dermeval Netto 
Gênero: Documentário  
Duração: 49:26

O filme retrata a Rebelião de Paty de Alferes. Uma das maiores rebeliões de escravos da história. 
Manoel Congo era um ferreiro, nascido na África, escravo de posse do capitão-mor Manuel Francisco Xavier, dono de centenas de escravos e das fazendas Freguesia e Maravilha em Paty do Alferes.
No dia 5 de novembro de 1838, ao que tudo indica, Manoel Congo, reuniu outros escravos e partiram da Fazenda da Freguesia rumo à Fazenda da Maravilha, pertencente ao mesmo senhor. 
Arrombaram portas e furtaram alimentos, reuniram outros escravos, que não sabe-se afirmar se acompanharam os outros, por vontade ou por ameaças. 
A revolta dos escravos, começou quando o capataz da fazenda Freguesia matou o escravo africano Camilo Sapateiro e nenhuma punição foi dada a ele. 
Lutando por sua liberdade e por justiça, os escravos partiram. 
Vistos como um bem comercial e como investimentos das fazendas, a fuga de tantos escravos, era um prejuízo enorme, além das fazendas ficarem completamente desprotegidas. 
Francisco Peixoto de Lacerda, solicita tropas e lidera-as para deter a rebelião. 
As tropas seguem a Serra Santa Catarina, em Paty do Alferes, em busca dos escravos fugidos. 
Um banho de sangue, encerra a luta de Manoel Congo e seus companheiros. Dezenas de escravos são assassinados pelos soldados, e dois soldados são mortos em combate.
Após a “vitória”, o capitão-mor Manoel Francisco Xavier, pede que as tropas se retirem de sua fazenda. É necessário que ele mesmo, pague os custos do advogado que representará os escravos em julgamento. 
De acordo com registros, feitos por brancos que acompanharam o caso, Manoel Congo liderou a rebelião e ameaçou outros escravos a fugirem, portando uma pistola. Não se sabe da realidade, já que os registros foram feitos por senhores e por uma justiça branca. Mas sabe-se que Manoel Congo, foi o único condenado à morte, enquanto as mulheres foram absolvidas e os outros escravos, foram condenados à centenas de açoitadas e 3 anos portando correntes no pescoço. 
Era necessário apenas um indivíduo para conter qualquer faísca de luta pela liberdade, e desta forma, Manoel Congo foi enforcado para que servisse de exemplo como opressão e domínio dos ideias de liberdade.
Percebemos que até hoje vemos resquícios da escravidão em nossa sociedade. As dores do país que foram varridas para debaixo do tapete.
Toda a herança de sofrimento que a escravidão nos deixou, colhemos com as desigualdades sociais e o preconceito tão notáveis nos dias atuais. É natural nos depararmos com os filhos da injustiça vivida naquela época. As oportunidades favorecem aos brancos, enquanto os negros continuam mantendo, em sua maioria, a sina de seus ancestrais. 
O racismo nada mais é do que um sintoma da doença que foi a escravidão. Doença que ainda predomina em nossa sociedade preconceituosa e injusta. 
A história de Manoel Congo, é desconhecida até mesmo por pessoas que vivem na região. Lutas são esquecidas, a opressão encontra-se nos dias atuais, quando vemos as oportunidades mal distribuídas entre classes dominantes e minorias hostilizadas. 
A saga de Manoel Congo, trata-se do exemplo de histórias mal contadas, a fim de manter o domínio, hoje em dia velado e disfarçado.


“— O depois nunca é como foi imaginado pelos que viviam sob tiranias. A nova ordem republicana não educou os filhos dos escravos. Como cometemos tal erro? Ainda carregamos como uma bola de ferro atada aos nossos pés as cicatrizes desse erro... e ainda estamos aqui, amarrados pelos fios de um novelo que nos constrange. Por que é sempre tão tardia e lenta e limitada a liberdade nesta terra?”
Trecho do livro Tempos Extremos de Míriam Leitão




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