Um guia do iniciante de como se sentir satisfeito consigo mesmo: aprender a usar a capacidade que todos temos de enxergar além





Não, hoje eu não me sinto escritora, nem poetisa, nem professora, nem mulher, nem.
Ah, nomes, designações, conceitos, essas coisas.
Eu me sinto melhor que antes, mas longe de como gostaria de me sentir.
Não me sinto satisfeita comigo, acho que me falta mais garra para perseguir mais sonhos; falta-me paciência para a rotina e para o trabalho – eu poderia ser bem mais paciente porque sei, por experiência, como ser humano é ser falho e doido, mas ela me falta.
Eu luto contra aqueles dias piores em que bate a vontade de ficar dentro de casa com as janelas fechadas fingindo ver TV com um pote de doce no colo. Luto para ligar o computador e ascender as atualizações das redes sociais. Luto contra sensações que acabei deixando se tornarem tatuagens e hoje custam a se apagar, ou melhor, custam a permitir que eu tatue outra sensação em cima.
Eu brigo comigo, mas às vezes sou mais forte que eu. Mais teimosa. Mais incisiva no que não deveria ser tão incisiva.
Eu brigo comigo e digo pra mim “é, você tem razão, eu posso ser tão melhor...”, depois acabo me calando e fico emburrada num canto da minha consciência pensando; penso até em fugir, mas isso é tão covarde e perigoso.
Mas eu gosto quando, em certos dias, não me sinto nada além de um ser vivo que possui certas consciências. Eu prefiro até não me sentir satisfeita porque assim venço a vontade de parar, de estagnar, de desistir. E quando eu não desisto e faço algo que realmente me sai do coração sinto ter subido mais um degrau na vivência. Aí eu me sinto satisfeita comigo e me dou ao luxo de sorrir pra mim em elogio.
Eu gosto de deixar alguém que amo feliz. Gosto de fazer coisas simples, de ver sorrisos nos rostos dos amigos, gosto da sensação de “fazer por fazer”, simplesmente porque quero, porque amo e porque não há compromisso com a obrigação nem com a rotina. Fazer sem querer nada em troca, fazer porque ao receber aquele sorriso é um momento único que irá ficar gravado, não importando antes nem depois. Aí eu me sinto satisfeita comigo.
Porque percebo, também, que consigo vencer diversas vezes a neurose que tenho com o ser humano, que anda tão estranho – mas ele não é de todo perverso, como há dias em que parece o contrário. Eu consigo ainda sentir compaixão, sentir encanto, sentir poesia – única forma de compreensão em meio a loucura.
E hoje eu estou assim: nada além do que a vida proporciona. Possuo cabelos e voz, e dedos e pernas, possuo pensamentos e sensações e, sim!, estou aqui de passagem. É como uma viagem. Não escolhemos os lugares, nem os companheiros; às vezes vamos na janela, mas também no corredor, em pé. Mas podemos escolher prosseguir, procurar um lugar melhor, afastar-se ou aproximar-se das pessoas. A paisagem é linda e, principalmente, aquilo que se oculta para além do que a janela permite ver é o que realmente vale a pena ser perseguido.
Ah, essa capacidade que todos recebemos de enxergar além é um exercício vital. Quando consigo me desprender de tudo – inclusive da condição de como “estou” neste planeta – e me desmaterializo até apenas sentir a vida passando em mim, eu me sinto satisfeita comigo.
Tudo é passagem, é efêmero: o que fica é o que menos nos damos conta hoje em dia. O que fica é o sorriso que eu consegui fazer brotar; a ajuda que eu consegui realizar; o amor que eu senti e ofereci sem medo, sem querer nada em troca, o amor que eu senti e dei porque simplesmente há uma luz de vida em nós tão inexplicavelmente intensa e não devo deixar que nada ofusque, por mais que haja dias de derrota, de medo, de descrença.
Quando eu olho pela janela e enxergo toda a beleza da natureza, eu me sinto satisfeita comigo.
Quando eu olho para tantas pessoas nulas da fama e dos noticiários perversos e neuralizantes e vejo que elas são belas e tão humanas, eu me sinto satisfeita comigo.
Quando eu olho para mim e sorrio sabendo que posso ser bem melhor como ser vivo de consciência, como “humana”, como pessoa, eu me sinto satisfeita comigo.

Elayne Amorim

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