Junho



 

O cheiro de gengibre afagou a ponta gelada do meu nariz, acariciando-o. A timidez desviou os meus olhos de forma ríspida. Ouvi o seu riso devagar. Na medida em que foi se aproximando, senti sufocar o olfato. Dedos grossos no meu queixo me fizeram erguer novamente – me encarou, e então estremeci ao frio que atravessava a nudez da minha alma. Tocou-me os lábios, o sabor era doce. Canela, talvez. As mãos também estavam frias, mas explicavam com maestria como se fazer combustão ao deslizar com cuidado por meu corpo. As pessoas repousavam com tranquilidade por entre uma barraca e outra, pareciam não nos notar. A fogueira queimava no centro da praça. Algo inteiramente novo ardia dentro de mim. Éramos a inocência da lenha que se entrega ao calor sem consciência da altura das chamas.
O que se sabe de amor aos 15 anos? Não, eu ainda não amava. Amor é pra gente grande. Eu apenas admirava o céu negro tomado por bandeirolas quando as palavras se sentiam estúpidas demais e regrediam antes de chegar aos lábios. A cada vez que o vento de inverno soprava, trazia ao meu encontro a crença de que aquelas cores davam vida também ao meu peito. Não era amor, sabe. Era a descoberta de sensações que eclodiam feito show pirotécnico – cada poro do corpo sendo palco de uma explosão. Eu era o próprio fogo, toda feita de artifícios. De amor eu nada sabia, é verdade. Conhecia apenas uma oração silenciosa ao sol, pedindo que ele se demorasse para nascer – as dores já fumegavam discretas diante da simples previsão do adeus. Não era amor, pensei. Apenas o desejo de que aquele instante em que sua respiração se casava com a minha durasse o tempo do sempre.
“Guarda-me num relicário”, foi o que ele disse ao dia claro, quando não se podia mais prolongar a despedida. Mas a única coisa que eu conseguia ser capaz de guardar eram as cinzas da lua que se apagou sem piedade. E a nostalgia do aroma de especiarias. E o sorriso vazio feito a praça ao fim de festa. Quanto tempo demorariam as estações? Quanto tempo bastaria para desbotar a cor de uma bandeirola que deixara de decorar do céu? Não houve resposta, apenas o silêncio algoz da sanfona que anuncia o seu descanso. Acabei por guardá-lo no relicário, afinal. Não desses que não se pendura no pescoço, mas que é lacrado com uma promessa de eternidade e depositado no fundo do peito. Se era amor, eu só saberia muito tempo depois. Era junho, disso bem me lembro.

Sâmia Loise

 

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